A outra face do rio
Nesta expedição, da nascente à foz, foi possível conhecer
um outro tietê – sem poluição, alegre e cheio de vida – cruzando as terras do interior paulista
Texto: Thiago Medaglia
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| Na região em que o Tietê desemboca no rio Paraná são comuns os grandes círculos das culturas agrícolas |
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Pouca gente conhece, mas ele existe. Surge no alto das serras paulistas e, nas palavras do poeta Mário de Andrade, contradiz o curso das águas e, em vez de rumar para o oceano, afasta-se do mar adentrando a “terra dos homens”. Não é daqueles rios de águas sujas. Em sua nascente, para matar a sede, basta se agachar e encher o cantil. Singra as terras no sentido oeste, provendo peixes às redes dos pescadores. Em suas praias, os guarda-sóis garantem a sombra das famílias e, em seu leito, lanchas e jet skis desfrutam, em alta velocidade, das margens largas. Garrafas PET não boiam em suas águas – são mais vistas com refrigerante, sobre as mesas dos restaurantes ou em barcos de passeio. O nome desse rio cheio de vida é Tietê.
É difícil acreditar que o mesmo leito malcheiroso e sem graça, que se espreme entre as amplas avenidas marginais na capital paulista, ofereça, no interior do estado, peixes para matar a fome, águas limpas para o lazer e praias para o ócio. Mas a face morta do Tietê na cidade de São Paulo, embora seja a mais conhecida, diz muito pouco sobre o rio. Com 1.136 km de extensão e cerca 5 mil afluentes, o Tietê é o maior rio exclusivamente paulista. Nasce no município de Salesópolis, a poucos quilômetros no oceano, e caprichosamente segue em direção oposta ao mar, desembocando no outro lado do estado, no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul. O famoso e malfalado trecho inserido na capital tem apenas 26 km, pouco mais de 2% do total do Tietê.
Para muitos paulistas, o aspecto de esgoto a céu aberto do rio na capital não passa de aberração vista pela TV. “Sempre bebi daquela água. Não imaginava que era do Tietê”, conta dona Terezinha Ramos, 64 anos, uma das cerca de 16 mil pessoas que vivem em Salesópolis, cidade a 80 km de São Paulo. Dona Terezinha teve uma infância especial. “Nasci e cresci em volta daquela nascente”, lembra ela, filha do proprietário das terras em que fica o olho d’água que dá origem ao Tietê. Quando criança, umas das brincadeiras que fazia com os sete irmãos era caçar guarus, pequenos peixes encontrados na nascente do rio. “A gente fazia farofa com eles. Era uma delícia”, recorda.
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