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Mulheres de barro

A atividade de fazer panelas de argila perdurou ao longo dos séculos até se transformar num patrimônio cultural do Espírito Santo

Texto: Cristiane Figocelli

foto: Fernando Martinho
São as próprias artesãs que vendem o produto que fabricam seguindo os passos já traçados por muitas gerações de paneleiras


A culinária do Estado do Espírito Santo é famosa pela sua moqueca, consagrado prato feito à base de camarão e peixe, receita que mistura influências indígenas, africanas e portuguesas. Mas, como dizem os próprios capixabas, é preciso que a moqueca seja feita numa panela de barro para que alcance a autenticidade do sabor. São tradições que se complementam ao longo de séculos de história: as panelas de barro do Espírito Santo são feitas artesanalmente, com as mesmas técnicas e os mesmos resultados, há cerca de 400 anos. Em 2002, O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) declarou o ofício das Paneleiras de Goiabeiras, bairro de Vitória, como patrimônio cultural do Brasil.

Basta andar alguns quilômetros além do aeroporto para se chegar ao galpão da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, em Vitória, capital do Espírito Santo – onde se concentra a produção e o comércio de panelas, potes, travessas, bules, caldeirões e frigideiras feitas de barro nas mais diversas formas e tamanhos. São as próprias artesãs que vendem o produto que fabricam seguindo os passos já traçados por muitas gerações de paneleiras – uma cultura passada de mãe para filha que sofreu pouquíssimas alterações ao longo dos anos. O processo de fabricação é praticamente o mesmo que os índios usavam antes do descobrimento (ver pág. 76). Alceli Maria Rodrigues, 48 anos, é uma dessas paneleiras que, como ela mesmo diz, “cresceu no barro”. A mãe dela aprendeu com a mãe, que por sua vez aprendeu com a mãe e foi assim que ela passou a infância – brincando no barro, vendo-o transformar-se em panelas e forma de sustento. Aos 15 anos, quando oficialmente tornou-se uma paneleira, produzindo cinzeiros e panelas pequenas, Alceli não se orgulhava muito do aprendizado. “Eu tinha vergonha de dizer que era paneleira. Namorado novo nunca sabia”, confessa ela. O tempo e o reconhecimento da atividade consolidaram sua paixão. “Hoje posso dizer que fui conquistada pelas panelas”, revela. Sua mãe, Melchiadia Alves Corrêa da Vitória, de 81 anos, foi uma das primeiras a enxergar a importância da solidariedade entre as paneleiras e também de uma sede em que poderia se concentrar a produção, antes reduzida aos quintais das casas de cada uma. E fundaram a associação, hoje instalada no galpão em plena Vitória e visita obrigatória dos turistas.

Confira a reportagem completa na edição 125. Já nas bancas!

 


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