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Opinião

Aquíferos

Um modelo de acordo para o Aquífero Guarani


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Como secretário-geral do Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Aquífero Guarani, o engenheiro Luiz Amore (foto) articulou governos, instituições e os principais pesquisadores que trabalham tanto no Brasil como na Argentina, Paraguai e Uruguai com um objetivo: mapear e dimensionar o potencial da reserva, identificar ameaças e iniciar o diálogo entre as nações que compartilham a água. Especializado em hidrogeologia, Amore, que já havia operado a cobrança pelo uso dos rios no Brasil, está agora em Montevidéu, de onde falou para Horizonte Geográfico.

Horizonte Geográfico – O Aquífero Guarani é considerado um tesouro desconhecido. O que tem sido feito para aproveitá-lo bem?
Luiz Amore – O conhecimento é a principal arma para protegê-lo. O projeto que coordenamos chegou a resultados importantes. Durante seis anos, com US$ 13 milhões do Banco Mundial, o trabalho envolveu 300 técnicos dos países participantes e mais de 2 milhões de pessoas tiveram contato com os experimentos de campo. Foi confeccionado um mapa a partir de 191 cartas topográficas e uma base de dados com informações sobre mais de 7 mil poços, acessíveis para consulta na internet. É o ponto de partida para aproveitar esse manancial de maneira sustentável. A partir disso, foram realizados experimentos piloto de como monitorar o uso, como ocorreu em Ribeirão Preto (SP), para depois o modelo ser replicado nos países.


HG – Qual a perspectiva de um acordo internacional para garantir o uso pacífico dessa água?
Luiz Amore – Os países criaram leis e programas internamente, estabeleceram ações conjuntas que agora serão implementadas a partir do maior conhecimento técnico sobre o manancial. Foi criado o Conselho Regional de Cooperação, integrado por agências de recursos hídricos e áreas de meio ambiente e relações exteriores, com sede no Uruguai. De imediato, o trabalho fará parte do Tratado do Rio da Prata. O Parlamento do Mercosul está trabalhando para aprovar um novo tratado.

HG – O projeto confirmou que o aquífero é descontínuo, diferente de uma região para outra. É um mito dizer que o Guarani é a solução para abastecer os países?
Luiz Amore – As pesquisas mostraram que os efeitos e prejuízos da superexploração e da contaminação são prioritariamente locais. Em muitos casos, como ocorreu em Concórdia (Argentina) e Salto (Uruguai), é preciso impor limites de uso. Essa realidade varia de país para país. Por isso, o controle e o modelo de uso devem ser locais.


Petróleo

“Precisamos economizar energia”


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O professor José Goldemberg é um cientista que reconhece os limites da tecnologia e seus efeitos no meio ambiente. Defende como poucos as fontes energéticas alternativas, desde quando se tornou referência antinuclear na oposição ao regime militar, que se empenhou na construção das usinas de Angra. Depois de ser ministro do Meio Ambiente e ter conduzido a Rio-92, passou a ver a energia também sob o prisma dos impactos globais. De volta ao Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, onde lecionou durante anos, e após ocupar o cargo de secretário de Meio Ambiente de São Paulo, Goldemberg participa intensamente dos debates em torno das mudanças climáticas. Conforme explica nessa entrevista à Horizonte Geográfico, entre os desafios urgentes nesse campo estão a criação de programas de eficiência energética e uma melhor distribuição de energia para se evitar qualquer tipo de dependência de apenas uma fonte, ainda mais quando seus efeitos para o ambiente são prejudiciais.


HG – O petróleo é uma cultura entranhada na vida das pessoas. É possível viver sem ele?
Goldemberg – No momento, não. Se as reservas de petróleo se esgotassem subitamente, a civilização, nos moldes como existe hoje, desapareceria. A começar pelo transporte individual e de cargas, que hoje soma quase 1 bilhão de veículos no mundo. A humanidade não está preparada para viver sem petróleo. Mesmo a US$ 100 o barril, o consumo não cessa de aumentar.

HG – E os impactos da utilização do petróleo também não deixam de crescer?
Goldemberg – O aspecto negativo dessa dependência é que o petróleo é responsável por aproximadamente um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global, bem como pela maioria dos problemas de poluição nos países produtores. Fora do petróleo e de outros combustíveis, como o carvão e a energia nuclear, as alternativas são o etanol, o biodiesel, o gás natural e o hidrogênio. No transporte, essas alternativas estão sendo usadas, mas hoje ainda representam muito pouco se compararmos à quantidade
de petróleo consumido no mundo.

HG – O consumo de petróleo da China representa hoje uma questão importante, à medida em que a economia do país não pára de crescer. Como resolver esse impasse?
Goldemberg – É uma questão difícil. Quanto à geração de energia, as atenções estão centradas na China e nos Estados Unidos, onde a eletricidade é produzida a partir do carvão em grande maioria. Com o crescimento acelerado da economia chinesa, isso está se tornando um problema, porque impede um pacto internacional que envolva os dois países para reduzir as emissões de carbono. A recente Conferência de Bali tratou desse problema e ficou acertado que se tentará um acordo até 2009.

HG – O senhor coordenou no Brasil, em 2007, um estudo internacional que propôs investimentos globais de US$ 18 bilhões por ano em energias limpas até 2012. Qual o cenário ideal para o País nesse setor?
Goldemberg – A matriz energética brasileira é limpa, porque está sustentada pela geração hidrelétrica. Excluindo o desmatamento da Amazônia, o Brasil é o 18º entre os maiores emissores de gases de efeito estufa, o que nos dá uma posição confortável nas negociações internacionais. Todo esforço deve ser feito para aumentar o número de usinas hidrelétricas, tomando, é claro, as medidas adequadas para proteger o meio ambiente.

HG – O ano de 2008 já começou com o debate sobre as ameaças de apagão, diante da estiagem que reduziu as represas das hidrelétricas. Como evitar esse tipo de problema no curto prazo?.
Goldemberg – O governo precisa lançar um programa de emergência para racionalizar eletricidade, envolvendo residências e empresas. Precisamos ter consciência de que o problema é grave. É importante economizar e adotar soluções rápidas, que sejam possíveis na prática e nos livrem do racionamento.


Biopirataria


“O combate à biopirataria dificulta a pesquisa brasileira”


Pesquisador da Unicamp elogia a qualidade dos profissionais e afirma que a ciência ecológica deveria ser mais reconhecida no país



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O primeiro presidente recém-eleito da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Abeco), Thomas Lewinsohn, afirma que a pesquisa da biodiversidade brasileira é vigorosa, mas os profissionais precisam ser reconhecidos como parceiros e interlocutores nas várias esferas de avaliação, planejamento e tomada de decisão sobre o desenvolvimento do país. Na entrevista abaixo, Lewinsohn, que é professor da Unicamp, cita os avanços na área de pesquisas em análises de zoneamento e priorizações de áreas para conservação, no manejo de populações de espécies valiosas e na restauração de áreas degradadas. E critica, com o conhecimento de quem realizou a primeira síntese do que precisa ser feito para inventariar a biodiversidade brasileira, a burocracia e a desconfiança do governo que, com o objetivo de combater a pirataria, dificulta a realização de projetos essenciais nessa área.


HG – Como a biodiversidade influencia a economia e o desenvolvimento de um país?
Thomas Lewinsohn – De muitas formas, mas, infelizmente, as mais importantes não são percebidas pelo público, governo ou empresários. Este não é um problema só do Brasil.
A biodiversidade é fundamental para o que chamamos serviços ecossistêmicos, ou seja, que dão sustentação a processos fundamentais para a existência humana: água potável, ar respirável, equilíbrio climático, redução do impacto das enchentes e das doenças. Mas a maioria das pessoas não vê essas funções ou as considera gratuitas.

HG – A biopirataria é uma ameaça à biodiversidade brasileira?
Lewinsohn – Acho correta a preocupação de policiar o contrabando de organismos biológicos, mas tenho a impressão de que ele continua sendo mais danoso nas suas formas tradicionais – contrabando de animais de estimação, plantas para decoração, produtos valorizados como o couro de jacaré ou de onças. A biopirataria, tendo por objetivo a prospecção de novos produtos farmacêuticos, cosméticos etc., é mais difícil de ser avaliada. E o seu combate tem tido um efeito evidente: o de dificultar a pesquisa da biodiversidade. Foram criadas dificuldades muito sérias para pesquisadores brasileiros, que são tratados como criminosos até provarem o contrário. Muitos projetos essenciais são retardados ou até abandonados por causa do cipoal de burocracia e desconfiança que se criou, além da dificuldade de intercâmbio internacional. Seria fundamental restabelecer um mínimo de bom senso nas instâncias governamentais, que chamaram a si a tarefa de regular a atividade de pesquisa.

HG – Quais os problemas que afetam a biodiversidade brasileira?
Lewinsohn – Agora e sempre, o maior problema da biodiversidade é a perda de ambientes naturais por causa de sua conversão para outros usos. No Brasil, continua sendo mais barato cortar e queimar mata ou cerrado do que usar eficientemente as imensas extensões já abertas há muito tempo. A defesa dos espaços ambientais ainda íntegros é da maior urgência em todos os grandes biomas do Brasil e isso não se resolve em discursos genéricos a favor do verde. A Abeco pretende dinamizar o intercâmbio entre profissionais na área, mas também promover a imagem pública da ciência ecológica, que é tão importante como outras áreas científicas para o futuro do Brasil.


Prós e contras de Angra 3

"É um despropósito manter indefinidamente os rejeitos”

foto: Divulgação
Professor do Programa de Pós-Graduação em Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia, da Universidade de São Paulo (IEE/USP), Célio Bermann é um dos especialistas que mais criticam a retomada de Angra 3 e a construção de usinas nucleares para geração de eletricidade. Ele defende a modernização das hidrelétricas e a redução de perdas no processo de produção e distribuição da eletricidade como formas alternativas às usinas nucleares.

“Sou contra a conclusão de Angra 3.
Os equipamentos comprados deveriam ser guardados como reserva para Angra 2, criando a possibilidade de aumentar a vida útil dela de 30 para 60 anos.
É o que países da Europa e os Estados Unidos estão fazendo com suas usinas antigas, em vez de investir em novos projetos, que necessitam de altos investimentos. O número de usinas em construção no mundo, citado em relatórios, deve ser analisado com cuidado. Metade dessas usinas está em construção há mais de 20 anos. São situações muito parecidas com a de Angra 3, que foi deixada de lado pelo alto custo do projeto. Os projetos de usinas não avançaram, tecnologicamente, dos que já existiam nos anos 80 e 90. Houve melhorias, mas questões como a destinação final dos rejeitos de alta radioatividade não estão solucionadas em lugar nenhum no mundo. É um despropósito pensar em manter indefinidamente um rejeito que emitirá radiação por 10 mil anos em piscinas, como ocorre em Angra. Além disso, os projetos apontados como solução definitiva, como o depósito escavado no interior rochoso da montanha Yucca, nos Estados Unidos, são extremamente caros. Agora o argumento do efeito estufa é usado como forma de justificar um movimento mundial que, a meu ver, não existe. Das usinas em construção, a maioria está na Rússia, China e Índia, que têm taxas muito altas de desenvolvimento econômico. No caso do Brasil, a repotencialização das hidrelétricas com mais de 20 anos garantiria, pelo menos, 8.000 MW. Os custos seriam menores do que gastar na conclusão de Angra 3 ou investir em novas centrais nucleares. Outra alternativa é a redução de perdas no processo de geração e distribuição dos atuais 15% para 10%, o que para nossa realidade seria aceitável. Esse ganho seria o mesmo que construir uma usina de 3.700 MW. O Banco Mundial considera 6% o nível
ideal de perdas.”



“O governo empurrou com a barriga o quanto pôde”

foto: Divulgação
O físico Aquilino Senra tem toda sua formação e carreira acadêmicas calcadas no estudo da energia nuclear. Mestre e doutor em Ciências da Energia Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atualmente leciona e ocupa o cargo de vice-diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (COPPE), defende a geração de eletricidade por usinas nucleares como forma de diversificação da matriz energética mundial.

“As obras de Angra 3 estão paradas há mais de 20 anos com quase todos os equipamentos comprados. Essa decisão foi tardia. O governo empurrou com a barriga o quanto pôde, mas a necessidade energética brasileira forçou essa retomada. Hoje sabemos que, se nada for feito sobre o aquecimento global, teremos grandes problemas não só ambientais, mas também na agricultura. O custo dos alimentos básicos vai aumentar também. Aliado a isso, devemos ter em mente que há uma demanda crescente por eletricidade no mundo e essa energia tem de vir de fontes menos poluidoras. A geração de eletricidade a partir da energia nuclear é o processo que menos emite gases causadores do efeito estufa e por isso as usinas têm de fazer parte da composição da matriz energética mundial.
Se o Brasil quer realmente crescer, oferecer melhor condição de vida para as pessoas, tem de haver investimento em infra-estrutura e produção de energia elétrica. Manter-se dependente quase que exclusivamente de usinas hidrelétricas é um erro estratégico. Basta lembrarmos o que aconteceu durante o apagão de 2001, conseqüência de fortes estiagens. Creio que hoje as questões de estratégia geopolíticas estão mais ligadas ao comércio entre os países do que vinculadas a uma corrida nuclear. Já estamos entre um clube restrito de nove países no mundo que dominam toda a tecnologia para a produção de eletricidade a partir de combustível nuclear. Temos urânio disponível e tecnologia própria para, com segurança, ampliar a utilização de usinas nucleares. Se a atual tendência de crescimento econômico brasileiro se mantiver, a decisão de construir novas usinas tem de ser tomada hoje. E a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Ministério de Minas e Energia indicou esse caminho também. Quem hoje faz críticas, principalmente do setor ambiental, futuramente silenciará.”

 


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